quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O ANALISTA DA PINHEIROBRAS

- Petroleiros, uni-vos!
Na luta contra o enlouquecimento.
- Próximo.
A fila vive cheia.
- Primeira vez?
- Sim.. – deveras constrangido.
- Então antes preencha a ficha, por favor..


ATENDIMENTO TERAPÊUTICO – PLANO DE SAÚDE PINHEIROBRÁS S/A

Nome do paciente: Adriano Alves Rigotto

RG: 3934773930 CPF: 935.506.098-40

Matrícula 9819485

Endereço: Rua das Couves, 911, bloco ametista, apartamento 69.

Tel res: 41815001 Tel. celular: não possui

Cargo: advogado

Nível: júnior

MOTIVO PARA A BUSCA DO ATENDIMENTO

- Dificuldade de sono, perda de atenção e concentração, apatia, impaciência, perda do apetite, sonhos perturbadores.

- Por favor, sente-se.
Nada de divãs. Não faria sentido tê-los, não pelo menos no ritmo fast-food de atendimento ali na Pinheiro. Apenas uma poltrona confortável, reclinável, afinal, petroleiro também é gente.
- Aqui na ficha do senhor, consta qu..
- Por favor, sem senhor. Ainda estou nos trinta.
- Ah sim. Ok.
A cadeira era confortável, e no entanto não achava uma posição que assim também fosse.
- Bem. Aqui na ficha, você fala que anda irritado, impaciente, apático e até tendo alguns pensamentos perturbadores... Gostaria de começar falando sobre isso?
- Como assim? – brabo – Não tem preliminares? Já tenho que ir direto ao ponto?
- Se quiser bater um papo como se bate em qualquer esquina, ok, mas o convênio da tua empresa não me paga para isso. Além disso, ao que consta foi você que veio aqui, entrou na minha sala, preencheu a ficha e escreveu nela que anda com esses problemas.
- É, ando mesmo.
- Anda o quê?
- Perturbado, catso. Faz parte do tratamento repetir diversas vezes que ando perturbado?
- Poderia descrever melhor esse estado de perturbação?
- Será que é depressão? Não mente pra mim que eu sou advogado e se você mentir eu vou saber...
- Continuo não te entendendo. Você acaba de entrar no meu consultório, sentar na minha cadeira, dizer meia dúzia de palavras, e já quer que eu trace um quadro clínico maduro, a ponto inclusive de afirmar categoricamente que você está deprimido? Por enquanto, a única coisa que posso dizer é que você parece reprimido, isso sim. Calma. Não precisa se apegar às classificações científicas. A verdadeira compreensão da psique humana dispensa rótulos. E o que importa é que você veio aqui porque já esteve bem no passado, hoje não está, e como quer que volte a ser como era antes, cá está, tentando..
- É verdade.
- Então...
Silêncio.
- E aí?
- Pode continuar falando.
- Sobre o quê?
- Sobre os tais pensamentos perturbadores.


OS PENSAMENTOS PERTURBADORES


- Negócio é o seguinte. Tô vivendo altas crises, doutor. Sofrendo pacas.
- E o que tá pegando? Mulher? Grana? Família?
- O trabalho, doutor.
- O trabalho? Na Pinheirobras?
- É doutor. Tá punk. Tô me sentindo um estranho no ninho.
- Um estranho no ninho?
- Imagina o seguinte. Antes de entrar na Pinheiro, eu era roots.
- Roots?
- É. Roots. Só andava barbado, de pés descalços, só na vibe do contato com a energia que exala da mãe terra. O máximo que eu punha era uma sandália de couro pra ir tomar um sucão de açaí.
- Isso é que ser roots?
- Além disso, eu passava o dia pirando, filosofando na vida, na morte, principalmente no surf, quando a gente fica sozinho lá no fundo, esperando as séries entrarem.
- Você é surfista?
- E se o bolso vivia vazio de grana, também não podia reclamar. O ordenado que eu tirava lá da repartição sempre foi suficiente para bancar as barcas pro litoral no fim de semana. Armava a barraca só de frente pro pico, e ficava lá, largadão sozinho. Já teve vez que desencanei de armar a barraca e dormi na areia mesmo, do lado da fogueira, ouvindo os estalos dos gravetos queimando, curtindo as estrelas e sonhando com as ondas do dia seguinte.
- Sei.
- Sempre fui dessa vida in natura, sabe doutor. Logo nas minhas primeiras idas à praia, ainda pirralho de tudo, fiquei amarradão na força da natureza né, que não tem nem o que falar... - Compreendo.
- Só que naquela época ninguém falava de crise ecológica, de aquecimento global e coisa e tal. Só uma meia dúzia de hippongas davam voz à questão. E eu era um deles. Outro dia tava pensando. Acho que faço parte da primeira ou segunda geração de ambientalistas que surgiu no Brasil.
- Sei. E como ambientalista, o que você vem fazendo em prol do meio ambiente, desde então?
- Bom... Agora o senhor me pegou de supetão. De vez em quando eu recolho uns plásticos lá no pico que eu pego onda. Também não pego carro durante a semana. No máximo metrô. Durante cinco anos andei só de bike em São Paulo. Desisti quando à noite um taxista quase me matou. Agora tô entrando forte na onda da reciclagem. Tenho só um pouco de preguiça na hora de lavar as coisas, enfim, mas isso não vem ao caso. O que interessa é que eu sempre me orgulhei desssa minha militância ideológica, desse meu apreço espiritual pelo verde...
- Certo.
- Só que aí o tempo passou, fui crescendo e me dei conta de que só com o ordenado da repartição não ia dar pra bancar as trips de surf do sonho. Eu precisava arrumar um emprego melhor, desses que me possibilitasse tirar umas boas férias, de repente ir pra Indo, saca? De braço aberto dentro daqueles tubões turquesas da ilha de Java?
- Perfeita a lógica.
- Foi aí que resolvi fazer a faculdade de direito.
- Direito?
- Pois é. Eu sei, apesar da vida de advogado não ter lá muito a ver com a de surfista, desde pequeno eu notava que esses caras é que sempre estão bem na fita, com a bufunba caindo do bolso.
- Entendo.
- Só que também não dá só pra pensar na grana, né?
- Não?
- Não, tem que ter poesia, tem que ter um plus além disso. Foi aí que pensei. Vou usar as leis, o sistema e o poder para defender a natureza. Vou virar juiz, pois como juiz eu posso sair distribuindo canetadas nos poluidores poderosos.
- Tipo um Marshall ambientalista?
- Isso.
- E como anda esse projeto?
- Então. Foi quando eu comecei a estudar para o concurso de juiz. Durante uns anos da minha vida, estudava de noite e de dia. Na primeira prova que fiz, não deu em nada. Não vinguei nem na primeira fase. Quando a história se repetiu pela segunda, terceira e quarta vez, decidi sair atirando para tudo quanto é lado. Larguei as aspirações mais poéticas e comecei a me contentar só com um ordenado que me possibilitasse conhecer os tubos turquesas da Indo. Independente da função, fiz concurso para qualquer cargo que remunerasse o razoável. Até para procurador da Previdência Social eu tentei. E nada. Só levava chumbo. Até que belo dia rolou. Não para juiz, mas passei no processo seletivo público de advogado da Pinheirobrás.
- E aí?
- Pô, aí fiquei amarradão. Eu não era juiz, mas já estava bem melhor na fita. Como advogado da Pinheirobrás, dava já para começar a sonhar com os caroços azuis de Bali. Entrei para a firma na maior animação. No começo foi muito bacana conhecer esse mundo todo da Pinheiro que se abriu. Na primeira semana, eu e os outros aprovados nem trabalhamos. Ficamos só na “ambiência”. Passeamos pela maior refinaria do Brasil, entramos nas salas de controle da indústria, aquela coisa toda high tech, parecia a nave do 2001 do Kubrick.. Depois os engenheiros fazendo exposições sobre a dinâmica da indústria do petróleo, etapas do processo de refino, sem falar nos coffee breaks em que eu e os demais advogados recebíamos toda ordem de frutas, sucos e lanchinhos. Era como se dissessem assim: sejam bem-vindos, nós te queremos muito bem aqui. Tudo ia às mil maravilhas, até decidirem em qual setor do jurídico eu iria trabalhar...
- Qual?
- No departamento de direito ambiental...
- Bacana, tudo a ver.
- Bacana? Tudo a ver? Acho que você não entendeu o espírito da coisa.
- Ué? Você não foi sempre tão ligado às questões ambientais?
- Certo. Mas não na condição de advogado de uma gigante petrolífera em ações ambientais. Do dia para a noite eu simplesmente virei defensor da maior poluidora do Brasil, e justamente em causas do gênero.
- Você se sente culpado por isso?
- Culpado?
- Eu sou um vendido. Pelas ondas turquesas da Indo, vendi a única ideologia que eu tinha.
- Não entendo. Fossem outras petroleiras por aí, até entendia, mas a Pinheiro? A Pinheiro não. Veja quantos prêmios internacionais ela já ganhou, a Pinheiro integra o índice Dow Jones de sustentabilidade da bolsa de Nova Iorque, a Pinheiro é a maior investidora de projetos ambientais no Brasil, uma referência internacional no modelo de gestão ambiental sustentável.
- Isso você fala porque é o analista da Pinheirobrase e porque fizeram contigo o mesmo que fazem com todos: lavagem cerebral.
- Não é verdade! Lavagem coisíssima nenhuma. Essa empresa é uma mãezona para seus funcionários, essa é que a verdade. Por isso que todos que aqui trabalham gostam tanto dela.
- Pra mim é lavagem da braba mesmo.
- Está bem. Nem é essa a discussão que vem ao caso agora. Continue contando mais sobre os seus conflitos profissionais.
- Pois é doutor. Cruel. Advogado do diabo total.
- Pior que não é nem só isso o que tá me perturbando... Para piorar, o prédio da avenida Paulista onde fica o escritório do jurídico não é um prédio doutor. É um aquário. Um gigantesco aquário de seres humanos.
- No sentido figurado?
- Como assim, sentido figurado?
- No sentido de que você está o tempo todo em evidência, exposto...
- Que figurado nada! Aquário no sentido literal mesmo. Tô falando da estrutura do bichão. Sabe aqueles prédios todos envidraçados? Vidro fumê para todo lado? Pior. Não tem uma única janela. Você fica totalmente preso lá dentro. Se alguém quiser se suicidar, não tem como. Fora o ar condicionando. Terrível. O termostato mantém a temperatura irritantemente no mesmo nível, sempre no mesmo nível, faça o maior frio ou maior calor lá fora, a temperatura está sempre no mesmo nível. Sabe lá o que é isso?
- Sim.
- E não é exatamente como nos aquários de peixes? Tudo controlado, hermeticamente fechado, a iluminação mais artificial do que natural, se eu quiser tomar um ventinho na cara, não tem como. Às vezes, cai um mundo de chuva lá fora e não ouço absolutamente nada. Nem ver a chuva eu vejo. Por causa de um prédio encostado bem ao lado da minha mesa, só dá ele, o espigão vizinho.
- E isso te aflige?
- Lógico. Fico totalmente sem horizonte. Não te falei que eu era roots antes de trabalhar na Pinheiro? Pra mim, esse negócio de ficar sem horizonte é bem complicado. Sou do tipo natureba, entende? Minha alimentação é 70% vegetariana, sendo a maior parte dos 30% carnívoros, peixe ou outros frutos do mar. Se fico doente, por exemplo, só me trato com medicina fitoterápica. No máximo uma homeopatia, se o bicho pegar. Fora a yoga, que pratico regularmente para equilibrar a fluidez dos chackras.
- Então pra ti, trabalhar num arranha-céu corporativo é tortura?
- O ar condicionado está me secando por dentro, doutor. Os olhos vivem ressecados, a rinite alérgica voltou com tudo. Até a sinusite que nunca tive, desconfio que tem a ver com o ar.
- Há quanto tempo você já está na firma?
- Nove meses.
- Nove meses? Não acha que nove meses são mais que suficientes para saber se quer ou não esse emprego para sua vida? Pense ainda que há muitos jovens que adorariam estar no seu lugar, fazendo toda uma carreira aqui na Pinheiro..
- Sei.
- Então o que está esperando para ceder o posto?
- Mas e quem disse que quero pedir as contas nesse momento?
- Ué, pelo que está me pintando, a Pinheiro é o inferno de Dante..
- Também não é assim. Tem um lado bem bacana da firma..
- O quê, por exemplo?
- A festa de fim de ano até que foi astral. Outro negócio bacana é esse concurso cultural do Prata da Casa. Gostei de ver. A Pinheiro é parceira da cultura dentro e fora dela. Sabia que eu conheci o vencedor da categoria “cantor”?
- É?
- Foi o cara que limpa o banheiro do meu andar. Um dos faxineiros da Pinheiro. Pô, o cara canta muito, os jurados foram só elogio.
- Sei. Mas voltemos à parte que que me interessa. Conte-me mais um pouco sobre o seu “fazer”. Qual afinal o teu papel dentro da empresa?
- Meu papel? – pausa.
- O meu papel é dureza doutor...
- Além de tudo, a chefona é casca grossa.
- Casca grossa?
- Bravona mesmo..
- Sei.
- Logo na primeira semana ela já quis apavorar eu e os novos advogados da gerência. Passou pra gente ler os doze volumes do processo de licenciamento ambiental da maior plataforma de gás natural no Brasil...
- Interessante.
- Interessante?
- Sabe onde os caras estão querendo instalar esses montes de ferro?
- Onde?
- A menos de duzentos quilômetros de Maresias! Isso não pode, doutor, Marerê rola altas ondas... Mor sacanagem. Juro por Deus, devia ser proibido um negócio desses. Que nem tem lei que proíbe explorar petróleo em terras indígenas, devia ter alguma proibindo plataforma perto de pico gringo. E se os montes de ferro zoarem a formação ou o tamanho das ondas? E quem me garante que amanhã ou depois não vai dar nem uma vazadinha no mar? Vai ter duto marítimo também, sabia? E se furar esse duto que vai escoar o gás para uma praia do continente, bem perto de Maresias?
- Peraí rapaz... Talvez você esteja vendo as coisas só por um lado. O país precisa de energia. Sem ela, não dá pra continuar crescendo, movimentando a economia e empregando as pessoas. Mais. Pense que o gás natural que eles vão extrair de lá é mais limpo que o óleo combustível. Emite menos CO2 para a atmosfera, contribui menos para as mudanças climáticas.
- Mas contribui! Também contribui. E outra. Quem disse que é só uma plataforma e um duto marítimo? Já estão construindo uma mega unidade industrial para tratar o gás que vier do litoral. E depois de tratá-lo na usina, ainda vão transportar o combustível para uma refinaria. Como? Vão construir enormes dutos terrestres, ou melhor debaixo da terra. E que terra? Hã? A terra do Parque Estadual da Serra do Mar. A terra que sustenta milhares de florestas ombrófilas. E parque é parque, meu. Área protegida, intocável.
- Mas vão fazer isso mesmo?
- Lógico que vão! Já estão lá explodindo, cavando a maior buraqueira..
- Pior. Sabe como eles conseguiram viabilizar legalmente o empreendimento dos dutos em uma unidade de conservação de proteção integral?
- Como?
- Os engenheiros de dutos chegaram lá no departamento jurídico de meio ambiente e disseram assim:
- Aê ô seus advogados. Inventem uma tese jurídica aí que dê respaldo à passagem de gasodutos no meio da Mata Atlântica...
- E aí?
- Aí no meio da reunião, eu não aguentei. Falei nem a pau! Impossível. Juridicamente impossível!
- Sério? E aí?
- Aí a chefona ficou possessa. Imagina? Um mero advogadinho júnior de araque, recém chegado na Companhia, leigo total no ramo do direito ambiental, metendo o bedelho na conversa, falando pros engenheiros que não dava para fazer o empreendimento. No final, logo depois da reunião, a mulher me catou de jeito na sala dela. Gritando alto, bem alto mesmo, pra todo mundo ouvir, ameaçou me despedir pelo que fiz, falou que eu era pago para ser advogado da firma, para defender os interesses dela, e onde já se viu dizer que não dava? Não existe dizer que não dá, existe apenas dizer “como que dá pra ser”...
- Traumatizou?
- Passei umas três noites rolando na cama sem dormir direito. Quando conseguia pegar mais pesado no sono, tinha os sonos que eu mencionei na ficha. Ora era o esculacho da gerentona, ora surgiam os famigerados engenheiros de capacetinho laranja, detonando tudo com aquelas máquinas enormes, engolidoras de terra e árvores.
- Mas veja de novo pelo outro lado. Será que os dutos não são mesmo a melhor opção? Não seria pior ter um monte de caminhão subindo a estrada da serra com o combustível? E me diz outra coisa. Quem consome energia? Todo mundo. Você. Você consome energia. A energia está no teu carro, fogão, geladeira e embutida na compra diária de produtos transportados de caminhão, avião ou barco, até que você possa confortavelmente consumi-los na vendinha ao lado da tua casa. Cai na real meu amigo. Você também faz parte desse mundo. Você é das muitas peçinhas que acionam a grande engrenagem. E pelo pouco que sei, esta plataforma de gás aí extrairá do litoral paulista algo como 2/3 de todo o gás natural que hoje importamos. É quase a auto-suficiência do país...
- É doutor. Você é mais um capitalista desenvolvimentista que não tá nem aí se amanhã a casa cair... Estou falando que os dutos invadiram área de parque. Por um acaso você sabia que tem gente que diz que a Mata Atlântica é o ecossistema de maior biodiversidade do mundo?
- O primeiro é a Amazônia.
- Pode procurar na internet. A Wikipedia, por exemplo, diz que é a Mata Atlântica. Mas enfim. Primeira, segunda, tanto faz, o que ninguém contesta é que só sobrou 7% da vegetação original da Mata Atlântica, e aí, agora, sem mais nem menos, vêm esses caras querendo cavar túnel debaixo do que restou da floresta...
- Rapaz... Tem certeza de que não quer pedir as contas logo?
- Não! – resoluto.
- Não por enquanto.
- E o que justifica você continuar aqui, sofrendo tanto?
- Esse é o ponto. – expressão enigmática.
- A verdade é que ainda tenho uma missão a cumprir lá na Pinheiro.
- Missão?
- Psiu.. – rondou o olhar investigativo para as quatro paredes.
- É o seguinte. Você sabe guardar segredo?
- Não convém que na nossa relação existam segredos. Mas pode ter certeza de que o que for dito aqui será apenas entre mim e você.
- Certo. Então. Negócio é o seguinte. – já murmurando.
- Entrei numas doutor.
- Numas do quê?
- Entrei numas de que eu sou espião.
- Como é que é??
- É. Um espião verde.
- Espião verde?
- Psiu.
- É piada?
- Por enquanto, doutor, sinto que minha missão existencial é ficar infiltrado na firma, só coletando dados e fatos à minha volta, desmascarando as presepadas, daí, depois, com um dossiê consistente na manga, eu saio de lá e ponho a boca no trombone. Vou a alguma ONG ou à Promotoria Ambiental e desço o verbo.
- Mas isso soaria traição, não?
- Sim, mas de um jeito ou outro não escapo à condição de traidor de alguma coisa.
- E entre trair as minhas convicções e trair a Pinheiro...
- Por que você tem que ver as coisas sempre assim, tão maniqueístas? Será que não tem como ajudar a empresa a crescer com sustentabilidade?
- Sustentabilidade? Que sustentabilidade, doutor? Sustentabilidade é mais lenda que saci pererê. Fábula.
- Fábula?
- A retórica do desenvolvimento sustentável só serve para aliviar a consciência do homem moderno. Esconder uma verdade que convém seja ignorada.
- Esconder verdade, que verdade?
- Que o desenvolvimento incessante da economia mundial impede a atual capacidade de reposição dos recursos naturais Que num mundo de 7 bilhões de pessoas, é um tiro no pé continuarmos insistindo na sociedade do consumo e do desperdício. Eu sei que precisamos dar emprego, ocupação, dinheiro. Mas precisamos viver um capitalismo mais roots. Nossas pequenas e médias cidades precisam virar ecovilas. Precisamos frear nossos relógios. Nossas metrópoles precisam ficar mais calmas, menos apressadas. Precisamos oferecer menos produtos, só os mais essenciais. Se não, enquanto os paradigmas de consumo continuarem bombando para dar suporte a um crescimento incessante da economia mundial, nossos recursos naturais continuarão sendo explorados irracionalmente, as emissões de poluentes atmosféricos não vão parar de crescer, as bilhares de toneladas de lixo sanitário e industrial vão se acumular mais e mais nos já saturados aterros, continuarão aumentando as contaminações do solo e das águ..
- Exagero! Você está superavaliando. Não é assim tão caótico.
- Sinto muito, mas não venha você discordar de mim! Tudo o que mais tenho feito da vida nos últimos meses é ir às refinarias de petróleo, minas de xisto, termelétricas, usinas, aterros, e para quê? Para tomar nota dos estorvos. Eu piso no chão que fede, converso com geólogos, engenheiros e biólogos. Vejo com os meus próprios olhos a cara do lixo industrial. Sinto com o próprio nariz o odor que exala das bolhas marrons que estouram nas estações de tratamento da água. Sou testemunha lúcida do custo ambiental que a vida moderna nos cobra. E digo: a sustentabilidade ambiental que hoje pregam não existe. A sustentabilidade ambiental do discurso das empresas e dos governos é como um carro rumo ao precipício, no qual o motorista fica tentanto tirar a quinta marcha e jogar para a quarta.
- Tentando...
- Chega vai, cansei do seu besteirol utópico.. Então você quer que o mundo pare, é isso? O que você quer ver é uma crise sem precedentes? Como a de 29? Uma depressão na economia global, com perdas de empregos e postos por todo o mundo? Então vamos fazer o seguinte. É fácil ficar só no discursinho. Dê o exemplo. Seja o primeiro a largar o osso. Pare de trabalhar, ganhar e consumir. Mostre o que é ser um cidadão moderno, mas ambientalmente correto. Vire índio. Comece abdicando da idéia de pegar um avião, um carro e um barco para conseguir chegar até a tua praia perfeita lá na Indonésia...
- Opa? Peraí? Por acaso você está sugerindo que eu seja hipócrita?
- Não. Apenas digo que é muito cômodo ficar só nesse seu discursozinho moralista, mas continuar desfrutando de todo os melhores benefícios da vida moderna, que só alguns poucos ambientalmente incorretos como você podem desfrutar.
- Ô doutor, não pega pesado, velho. Desse jeito o senhor me judia. Desse jeito, vou sair daqui ainda mais perturbado do que quando entrei...
- Ótimo! Então, se isso acontecer é porque você estará se dando a oportunidade de enxergar o problema pelos dois lados, sem ser tão maniqueísta. Se isso de fato acontecer, você então se dará conta de que não é nem um bandido defensor da indústria poluidora, mas nem também um heróico espião da causa ecológica.
- Ah, entendi. Então pra você eu não faço a menor diferença? Para ti pouco importa de que lado esteja, o mundo será indiferente a mim, não é mesmo?
- Não exatamente. É meio complicado de explicar. Sei lá. Pense o seguinte.
- Você não é surfista?
Surpreendeu-se.
- Você não se diverte canalizando a energia que emana do mar?
- Então?
- É exatamente o que fazem os funcionários dessa empresa.
- Divertem-se canalizando as energias do mar.


INCOMUM

Estava cansado de ouvir sempre aquelas mesmas seqüelas de confinamento. Já não agüentava mais caso de petroleiro que surta depois de voltar do período isolado na plataforma marítima. Bastava o sujeito ir pro meio do oceano com umas encucações prévias, e batata. Voltava à terra doidinho, doidinho, carecendo urgente dos prestimosos serviços terapêutico do analista da Pinheirobrás. Já aquele caso do administrativo não. Um advogado? Com crises de consciência? Definitivamente algo incomum.
- E aí? Como anda? Melhor desde o nosso último encontro?
- Perturbado ainda, claro. De que outro jeito poderia estar? E vou dizer mais.. Por enquanto, essa tua terapia barata só está me confundindo mais as ideias.
- Sabe, estive aqui pensando, acho que tenho uma solução para o seu problema de ressecamento no ar condicionado.
- Tem? – surpreso.
- Por que você não compra um vaporizador?
- Vaporizador?
- É, aquele negócio de criança que fica saindo vapor d’água para umidificar o quarto.


DO MAL


Páreo duro. Muito mais do que o analista podia imaginar, aquele caso era um páreo duro. O advogado encasquetara com a idéia de que era do bem, apenas disfarçado como sendo do mal, pois somente assim ele legitimaria, ao menos perante sua própria consciência, o fato de que sim, estava lá, participando ativamente do sucateamento planetário, tomando contato com as demandas mais quentes do inferno, mas por uma nobre razão. Para agravar o seu recente histórico de culpas, agora o sujeito só falava duma malfadada reunião com a Promotoria Ambiental, durante a qual sucederam certas animosidades.
- A mulher não queria acordo, doutor. Falou que se o órgão ambiental não suspendesse imediatamente o licenciamento da plataforma e dos dutos lá no meio da Mata Atlântica, ela entraria com uma ação na Justiça contra a gente.
- Ação na Justiça? Para quê?
- Para embargar a obra. Parar tudo.
- E aí?
- Aí, no meio da reunião, a gerentona retrucou na lata. Rebateu a ameaça da Promotora dizendo que não havia qualquer irregularidade jurídico-ambiental a macular o empreendimento, ainda mais a justificar a tomada de uma medida assim, tão radical...
- E aí?
- Aí a promotora pirou. Exigiu que ficássemos pra trás de sua mesa, dizendo:
- Vocês são do mal! Pra trás da minha mesa que vocês são do mal!
- Doutor?
- Diga?
- Será que ela achou que eu também sou do mal?



“PALA”


Delírios em ascensão.
- Ufa.. Até que enfim chegou esse momento doutor. Hoje eu tava precisando muito falar contigo.
- O que foi agora? – satisfeito ante a constatação de que a exposição dos conflitos se lhe tornara uma necessidade.
- Tô apavorado.
- O quê?
- Acho que chefona já tá suspeitando da minha identidade de espião.
- É mesmo? Por quê? – em tom flagrantemente irônico.
- Aquela mulher é foda, doutor. A gerentona é esperta pra caramba. Tô morrendo de medo dela, meu. Acho que se a bichana descobrir que eu sou um ambientalista nato, de vocação mesmo, acho que ela surta. É capaz de me comer vivo.
- Pior que eu dei a maior “pala” outro dia aí.
- “Pala”?
- Bandeira doutor. Dei mole, entreguei minha verdadeira identidade, na maior das ingenuidades deixei escapar.
- Como foi isso? – super interessado.
- Foi na última reunião técnica da gerência de direito ambiental, a mulher pediu para eu fazer uma apresentação: O regime jurídico da antecipação de tutela nas ações ambientais inibitórias.
- Como é? – não entendeu, embora nem na verdade fizesse muita questão de entender.
- A tutela ambiental inibitória é a ação que o Ministério Público entra antes do dano acontecer, justamente para evitar que ele aconteça.
- Sei.
- Só que aí, durante a apresentação, teve uma hora lá que não me segurei. Inconscientemente eu acabei tomando partido do outro lado. Pior. Todos os advogados da área ambiental da região sul e sudeste do Brasil estavam presentes. No meio de uns vinte causídicos, não sei o que me deu na cabeça que saí em defesa da possibilidade de usar a ação inibitória em casos de poluição atmosférica como o da Pinheirobrás, de potencial futuro não atendimento à legislação ambiental sobre qualidade do enxofre no diesel fornecido ao mercado consumidor e respirador das cidades brasileiras.
- Bom.
- Então não foi só a gerente que desconfiou de sua real identidade... – em tom risível.
- Não, não. Acho que foi só ela mesmo. Foi uma defesa bem sutil, assim mais no plano da possibilidade meramente acadêmica mesmo. Não chegou a ter um viés moral. Nem cheguei propriamente a entrar no mérito da ação que está correndo na Justiça. Apenas enfatizei que cientificamente e em tese, a utilização da ação seria sim juridicamente adequada aos fatos.
- E por que só a sua gerente teria desconfiado?
- Digo que só a chefona que sacou o deslize, porque logo depois da minha defesa, quem foi a única que não discordou prontamente de mim? Enquanto todos os outros advogados imediatamente partiram pra cima, enfatizando o ridículo, o absoluto absurdo que era aquela ação do diesel contra a Pinheirobras, talvez o maior arbítrio da Justiça contra uma empresa tão ambientalmente responsável como aquela, e a chefona nada... Calou-se a me observar, avaliando cada passo de como eu me saía no meio do tiroteio. Sabe aquele olhar de quem olha querendo te desnudar?
- E depois da reunião ela chegou a comentar alguma coisa a respeito?
- Pior que não. Nem elogiou, nem reprovou, muito embora a verdade é que desde então ela tem me olhado diferente. Mudou, as coisas mudaram. Sinto-me o tempo todo dissecado. Como a sala dela fica a uns três metros do meu aquário corporativo ( leia-se baia personalizada, em forma quadrangular, com vidro na frente e atrás, e parede de madeira dos lados), ficou feia a coisa pro meu lado.
- Ontem pensei que talvez esse constrangimento todo seja um sinal.
- Sinal?
- Sinal de que está próxima a hora de eu encerrar a minha missão.

*

- Pô doutor! Não é que aquela tua dica do vaporizador contra o ar condicionado veio muito bem a calhar?
- Você comprou?
- Pois é. Comprei e tive uma idéia genial para acrescentar à fumacinha.
- O quê?
- Pra deixar o vapor relaxante, eu pingo umas gotas de óleo essencial de menta piperita na água.
- Óleo de menta piperita?
- Precisa ver, comprei nessas farmácias natureba. Agora sai um aroma zen do vaporizador que é contagiante. O cheiro já está tranquilizando todo mundo lá no meio ambiente do meu trabalho.
- Aprovaram então a tua fumaça aromática?
- Mais ou menos, né? No começo o pessoal achou esquisito, ficou curioso. Agora já tem uns lá que tão quase aderindo ao movimento.
- E o cheiro de menta? Também serviu para acalmar os ânimos da chefia?
- Um pouco, sabia? Acho até que ela já nem anda mais preocupada com a minha identidade secreta. Outro dia ela até me elogiou, acredita? Não na minha frente, óbvio. Mas fiquei sabendo por terceiros..
- E o trabalho em si? Como andam as pancadarias ambientais? Mais tranquilas?
- Sim também.
- Ou sei lá. Talvez seja só eu que esteja me acostumando a não me indignar mais.
- Conforme os dias vão passando, sinto a impressão de que vou me anestesiando, perdendo o senso crítico, acostumando-me a não contestar mais aquilo que se convencionou adotar como realidade, irreversível realidade.
- A luta ilusória contra a realidade te causa sentimento de impotência?
- É. Acho que amadurecer é isso. É colocar as forças na balança e concluir que o comodismo é menos sofrido do que a desilusão.
- E quando que te caiu essa ficha?
- Quando descobri que até a parafina que eu passo na prancha vem do petróleo.
- Jura? Ah vá. Essa eu não sabia. Sabia do plástico..
- Pois é. A parafina também. É mole? Até as velas que os hippies acendem são derivadas do petróleo. Quando a bióloga do pólo petroquímico do ABC me contou essa novidade, eu mergulhei em altas trips filosóficas sobre o petróleo.
- Trips filosóficas sobre o petróleo?
- É. Comecei a viajar na química, na biologia, na sociologia dos hidrocarbonetos.
- Hum. E a quais conclusões chegou?
- Não é muito louco pensar que a principal fonte de energia do mundo, o que impulsionou a consolidação da sociedade industiral não passa de um monte de restos orgânicos depositados em bacias sedimentares escondidas no fundo do oceano?
- Pois é. Daí o termo combustíveis fósseis.
- E também não é muito maluco pensar que esse mesmo processo orgânico de sedimentação, que levou bilhares de anos para se formar, tenha se transformado na grande energia que transformou radicalmente o modus vivendi da humanidade?
- Ora, espanta-me sair da tua boca todo esse discurso.


*


Anotou no caderno: Quadro clínico evolutivo. Paciente começa a se libertar do moralismo aprisionante.
- Como vamos hoje?
- Bem.
- Alguma razão em especial?
- Não. Nada em especial. Só que às vezes rolam umas boiadas aqui na Pinheiro que são show de bola, né doutor?
- Rolou alguma para você?
- Outro dia bancaram três dias num hotelzão cinco estrelas no Rio, de frente pra baía de Guanabara, só para eu participar de um Seminário de Direito Ambiental. O bagulho era classe média alta, hein? Foie gras no almoço, água perrier pra beber, papaya com cassis na sobremesa, tudo na faixa. Depois, à noite, eu subia para a cobertura, via aquela vista da baía cheia de luzinhas, e ia fazer uma bicicletinha na academia. Depois, pegava uma sauninha clássica, seguida de mergulho na piscina.
- É... Não disse que essa empresa é a melhor que tem para trabalhar?
- Sabia que estou fazendo uma pós graduação às custas da firma, né?
- É?
- É. A gerentona obriga a gente a continuar estudando. Não tem conversa. Diz que o estudo agrega valores e conhecimento à Companhia. Além disso, é a oportunidade para a gente saber o que o resto do mundo vem falando sobre tudo aquilo nós temos feito. Só o que ela não imagina é que todo dia que eu vou à pós eu na verdade ouço alguém meter o pau na Pinheirobrás. Impressionante. Todo mundo só usa a Pinheiro para dar exemplo de danos ambientais críticos que foram parar na Justiça..
- E você se incomoda com isso?
- Olha, no começo eu até me incomodava, nem tanto por causa da firma. Na real, o que me pegava mais é que as críticas funcionavam como uma cutucada na minha incoerência ideológica. Na teoria uma coisa, na prática outra. Mas depois, com o tempo, fui ficando indiferente. Já não me sentia mais tão contraditório. Até que na última aula da semana passada voltei a me incomodar. Saí de lá revoltado, para te dizer a verdade. Tive que me segurar para não bater boca com o palestrante, um desembargador da Câmara Extraordinária do Meio Ambiente com fama de ambientalista xiita.
- Por quê?.
- Ele foi lá falar sobre o tema “Ética Ambiental”.
- Sei..
- Daí, primeiro começou com umas classificações. Disse que o mundo é formado pelos azuis e pelos verdes. Azuis são os que acham que tá tudo ótimo, que o negócio é continuar bombando mesmo, pois a evolução da humanidade é isso, crescer, crescer e crescer. E o meio ambiente? Para os azuis, nada de mais está acontecendo com ele. Já os verdes, entre os quais o próprio desembargador se inclui, os verdes não. Os verdes são o contraponto. São aqueles que se preocupam com o mundo, que rejeitam a idéia de desenvolvimento a qualquer custo, pois já têm consciência formada sobre a necessidade de mudança, antes que o bicho pegue, se é que já não está pegando faz tempo...
- E por que essa classificação te incomodou tanto?
- Não, não foi com a classificação que eu me incomodei. O que pegou foi o discurso cético que o juiz fez depois. Primeiro elegeu as empresas como as grandes vilãs do meio ambiente. Bateu pesado na indústria sucro-alcoleira. Só faltou o sujeito dizer que o Diabo é o acionista majoritário do etanol. Queima da palha da cana, trabalho escravo, enfim.. Depois, claro, não perdeu a oportunidade de descer o pau na Pinheiro. Diz que a gente só pensa em refinar o sal do mar, fazer buraco fundo, comprar distribuidora de combustível, dominar os vizinhos latinos, vender combustível para a frota americana, ah sim, com isso a gente se preocupa. Agora com as partículas por milhão de enxofre jogadas no ar das cidades, isso não é problema nosso. Depois o juiz reclamou das oportunistas jogadas de marketing ambiental dos bancos. Tudo balela marketeira. Na hora que você vai mesmo pegar o cartão de débito ecológico, eles fazem um milhão de restrições. Pra finalizar a palestra, o homem rodou um filme catastrófico sobre como será o meio ambiente no futuro. Câmaras de ar puro disputadas a tapa. Seres humanos enrugados por causa do sol abusivo e da ausência de água para consumo. Culpa de quem? Das virulentas empresas de hoje, que só visam o lucro imediato. Culpa da ganância empreendedora, que coloca a grana sempre acima da vida.
- Oras? Faz favor. Uma visão totalmente parcial da história..
- Mas não é exatamente nisso tudo que você sempre acreditou?
- Que as empresas são as grandes vilãs do equilíbrio planetário?
- Aliás, se bem me recordo, na primeira sessão aqui comigo, você chegou até a comentar que começou a estudar para virar um juiz ambientalista e poder canetar as empresas. Então? Não é exatamente isso que faz esse homem?
- É né? – parou para pensar.
- Ixi...
- Será que já fizeram lavagem cerebral comigo, e nem percebi?


CAUSA PERDIDA


Quadro clínico estável. Paciente começa a perceber que a riqueza da vida está na compreensão das contradições.
- Aquele juiz ambientalista viaja, doutor.
- Viaja?
- Sabe que outro dia eu fui fazer um recurso de uma ação judicial lá da Pinheiro, e para quem o recurso foi cair?
- Para o desembargador xiita da Câmara Extraordinária de Direito Ambiental...
- E o cara canetou feio o teu recurso?
- Não é isso. O cara foi totalmente arbitrário. Passou por cima de tudo quanto é direito fundamental pra conseguir nos condenar. Dá pra acreditar num negócio desses? Um juiz que ignora a Constituição? Perseguição explícita, só pode ser. Tava na cara que a multa do órgão ambiental lavrada contra nós já estava prescrita. Fiz lá a maior tese, provando por A mais B que caducou a maldita da multa, mas o homem não quis saber. Simplesmente ignorou. Nem sequer foi capaz de enfrentar a minha tese jurídica. Limitou-se a dizer assim: “conforme entendimento consolidado nesta Câmara Extraordinária de Direito Ambiental, a multa encontra plena validade no ordenamento jurídico”. Só que é o seguinte. Ele não falou qual era o tal do entendimento consolidado que justificava a não prescrição.
- Mas a multa foi justa? Vocês pisaram na bola? Mereciam levar a multa?
- Até deu uma vazadinha lá de leve no navio, mas pouca coisa. E outra. Foi lá na região portuária. O mar ali já é sujo pra caramba mesmo. E não interessa se vazou, não vazou.. A multa prescreveu. O direito é claro. Caducou, caducou. A gente não pode ficar eternamente na mão da Justiça. E a segurança nas relações jurídicas?
- Quer dizer então que graças ao Nicholas Marshall ambientalista, você perdeu a causa?
- É, mas não vai ficar assim não. Vai ter troco.


O TROCO


Na semana seguinte o advogado veio com outro caso, novamente envolvendo o ambientalista na condição de julgador dele. Agora uma pendenga relacionada ao desmatamento de vegetação às margens de uma lagoa particular. Resumindo a estória, depois de anos de chuvas torrenciais no verão, formou-se um pequeno açude dentro de certa propriedade litorânea da Pinheirobrás, vizinha ao Porto de Santos. Belo dia, a firma decidiu derrubar algumas árvores em volta da lagoa para construir um estacionamento. Aí veio o Ministério Público Ambiental com uma ação civil pública pedindo indenização e o reflorestamento do local, alegando que, de acordo com a legislação brasileira, o entorno de lagoa é área de preservação permanente. A partir daí, a discussão judicial centrou-se no fato de saber se a restrição legal é válida também para uma lagoa formada pelo mero acúmulo de águas pluviais. O advogado da Pinheirobrás alegou que o reduzido valor ecológico dessa lagoa não justificaria qualquer proteção da mata à sua volta. Então, para descobrir se afinal a lagoa tinha ou não alguma importância ao meio, o juiz nomeou perito na área. Um técnico ambiental para elaborar um estudo ambiental oficial que fosse conclusivo num ou noutro sentido. Como praxe, porém, antes da perícia as partes têm direito de formular perguntas a serem respondidas pelo expert em seu parecer. Mas, considerando-se que em casos ambientais, essa é a principal prova, se não a única de que o juiz se vale para julgar; o advogado estava revoltado com duas tendenciosas perguntas que o Promotor Ambiental fez para o perito responder.
- Totalmente desarrazoadas. Nada a ver com o objeto da ação! Sem chance. Fui obrigado a recorrer. E pra quem foi o recurso?
- De novo para o juiz ambientalista.
- Parece carma. Tome ferro novamente. Só que é o seguinte. Não vou me resignar não. Vou entrar com outro recurso. E vou te dizer uma coisa hein? Vou entrar com um segundo recurso só porque quem irá julgá-lo será ele de novo.
- Virou pessoal agora?
- Quer ver?
Puxou os autos da mão do advogado, leu-os atentamente. Em dado momento da argumentação, chamou a atenção do analista a parte da peça que fazia menção aos inúmeros postos de trabalho que a indústria do petróleo e gás gera na cadeia produtiva, seja direta ou indiretamente, e depois trazia balanços contábeis apontando a monstruosa arrecadação fiscal que a Companhia gerou no ano passado, em benefício de toda a sociedade, sem contar a comprovação dos significativos aportes da Pinheiro para projetos sociais na área ambiental. Dentro dessa lógica, o advogado defendia que só cabe a responsabilização das empresas por fatos efetivamente relevantes, algo que estava longe de ser o caso.
- Quem te viu, quem te vê... Agora só falta você colocar uma cartola na cabeça e um charuto na boca..


MALUCO BELEZA


Quadro clínico regressivo. Paciente tornou a se aprisionar no radicalismo moral. Naquela tarde ele entrou na sala do analista com olheiras fundas, cabelo esvoaçado, desarrumado mesmo, a camisa para fora da calça, gravata com nó mal feito e a barba por fazer.
- O que foi dessa vez?
- Ontem fui conversar com a chefona sobre o caso da lagoa e do desembargador que só nos prejudica.
- Sei..
- Aí, sabe o que a mulher me disse?
- Que nada daquilo a espantava. Que tudo mundo sabe que esse juiz é um maluco beleza.
- Quando ela disse isso - maluco beleza - parei de falar do recurso, de reclamar da decisão, e deixei ela falando sozinha. Não consegui mais prestar atenção em nada do que dizia.
- Maluco beleza?
- O que você acha doutor?
- Sobre o quê?
- Acha que ainda sou um maluco beleza?
- O que você acha?
- Às vezes acho que não sou mais maluco beleza. Já faz quase um ano que ponho terninho, gravata e vou trabalhar todo dia com aquilo tudo que você já sabe.
- Mas às vezes eu sinto saudades dos tempos em que eu era maluco beleza.
- Será que abdiquei das minhas raízes, doutor?
- Te ajuda pensar que não?
- Ajuda sim.
- Em que sentido?
- Em que sentido?
- Ajuda porque se daqui a alguns anos as coisas mudarem muito como alguns aí estão prevendo, e nisso a humanidade tiver que reaprender a trabalhar como ela quase sempre trabalhou para preservar a sobrevivência, pode crer que eu vou sofrer...
- Mas uma coisa é certa, doutor...
- Vai ter gente que vai sofrer muito mais do que eu.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

SANTO QUE É SANTO

Santo que é santo precisa de inferno. Afinal, sem trevas, de que valeria o dom da santidade? Qual santa graça haveria na luz do santo, se à sua volta todos já estivessem iluminados? Para se tornar um cabra produtivo, realizado e socialmente útil, até santo carece da existência do mal, não só os advogados, as seguradoras e outras figuras sociais demonizadas.
Aliás, falando em bem e mal, santo daquele que não luta contra a natureza humana, ao contrário, tenta compreendê-la. Santo não combina com o “tipo moralista”, aquele que passa o tempo todo julgando e se julgando. Santo não vem ao mundo à caça de culpas. Mesmo porque, santo geralmente é figura teimosa. Insiste em acreditar que o perdão ainda é a virtude, não a vingança. Uma vez que o único jeito eficaz de se “combater” o mal é simplesmente fazendo o bem.
Santo que é santo não suporta viver o tempo todo na “matrix”. Santo pode até mergulhar no sistema, trabalhar, incorporar personagens sociais, obedecer às leis da República, ser escravo do tempo, entender sobre as oscilações das taxa de juros do Banco Central, porém, verdade seja dita. Santo que é santo há sempre de manter o canal aberto (bem aberto) com bebês, crianças, adolescentes e velhinhos. Em hipótese alguma santo pode se dar ao luxo de se fechar para um universo humano tão rico, tão surpreendente, e ao mesmo tempo tão alheio ao que se passa nas repetitivas manchetes de jornal...
Não faz muito sentido prático que santo defenda que o paraíso e inferno estejam em algum outro etéreo lugar que não aqui mesmo e agora. Se for mesmo verdade que santos vêm ao mundo para ajudar a humanidade, então qual a razão para que os dias melhores anunciados fiquem somente para supostas outras vidas?
É provável que pessoas dotadas da santa sensibilidade acabem mais dia menos dia aprendendo a tocar algum tipo de instrumento musical. É que a boa música instrumentaliza milagres.
Agora uma coisa é certa. Toda santidade digna de santa graça há de ver graça no rosto de todos. Brancos, negros, latinos, escandinavos, heteros, homos, orientais, ocidentais, dessa ou daquela religião, enfim. Santo com “S” maiúsculo jamais enxergará preconceito onde há tão-só diferenças.
Sem pretender polemizar por polemizar, mas santo moderno que é santo moderno também deve gostar de sexo e dinheiro. Por qual motivo essas duas coisas tão básicas ainda deveriam ser tão tabus, se ainda por cima constituem necessidades humanas diretamente relacionadas ao instinto de sobrevivência?
Ainda sendo o santo um arauto das boas escolhas, creio que quando ele se enfia lá no meio do rebanho desgovernado, é no máximo para apontar um caminho que julga correto, nunca para oferecer um método infalível de como andar nele.
Como se sabe, e aliás nesse aspecto acho que é unânime: santo jamais vê necessidade em fazer fama em cima de sua condição de santidade. Humildade? Talvez. Mas acho que o principal é que o sujeito iluminado tem plena consciência de que o único Ser a quem ele deve satisfação decerto ficará ciente de suas generosidades, com ou sem auto-propaganda. Ou seja, santos, mais do que humildes, não costumam ser inseguros, nem auto-afirmativos.
Capaz também que os santos defendam a monogamia nas relações humanas, mas não porque sejam indivíduos possessivos, egoístas, ou por acharem que a traição seja algo imoral, socialmente inaceitável. Apenas para amar alguém por inteiro, como dizem, de corpo e alma, convém concentrar as energias nesse alguém, se não simplesmente dispersa, e aí, nunca é por inteiro.
Santo também tem medo da morte, pois valoriza demais a vida. E só por isso.
Santo não voa, mas vive livre. O que já é pacas, convenhamos.
Santo não é sortudo, tão-só cultiva o que planta, razão simplória pela qual não passa a vida cuspindo no prato em que come.
Santo. Indivíduo para quem já caiu a ficha de que amar não é um mero capricho dos Deuses, é só a única maneira de se manter lúcido.
Graças a DEUS, o amor não é privilégio exclusivo dos anjos.

terça-feira, 14 de julho de 2009

CELEIRO INESGOTÁVEL

Ultimamente o Brasil não vem mais exportando somente bons jogadores de futebol. Para o deleite dos gringos, além dos boleiros a cada dia o país se consolida como celeiro inesgotável de artistas. Na música, literatura, direção de cinema e agora também dramaturgia. Da nova geração de atores, claro, Santoro é o primeiro nome que vem à mente. Quem viu "Bicho de Sete Cabeças" sabe que não foi à toa que em tão pouco tempo o ator conseguiu se infiltrar na mafia de Hollywood.
Já da turma da velha guarda cênica, foi com muito pesar que no ano retrasado o Brasil perdeu o rei dos tablados, o "senhor dos palcos", como ficou conhecido Paulo Autran. Em 2000, tive a grata oportunidade de vê-lo em "Visitando sr. Green" de Jeff Baron, a história de um executivo gay que atropela um velho judeu e leva como pena da Justiça a obrigação de visitar periodicamente o octogenário. Da postura corporal ao perigoso sotaque adotado, impressionou a capacidade com que Paulo incorporou a figura do personagem idoso. Antes de morrer, ainda o vi algumas vezes na televisão, não no papel de personagens, sendo entrevistado. Costumava ele dizer o seguinte. Que cinema é a arte do diretos. Teatro a do ator. E tevê? A do anunciante.
Agora... Se tem um ator brasileiro que considero assim, sensacional, um monstro mesmo, esse artista é outro Paulo. Paulo Maluf.
Palmas para os Paulos
Autran e Maluf.
Afinal, o que seria de nós, pobres mortais, sem os impagáveis personagens que esses dois grandes atores passaram a vida encarnando?

A PROFECIA DO MILÊNIO

Lembra dela? Da profecia do milênio que nunca se realizou? O bug do milênio transformou-se em um dos episódios mais emblemáticos de uma face de nossa sociedade. O homem moderno vive sob permanente ditadura: a ditadura do medo.
A suposta pane que ocorreria em todas as máquinas de computador, varrendo todos os sistemas de informação, supostamente traria consequências duradouras e prejuízos incalculáveis. Algo comos os filmes B americanos. A revolta das máquinas contra os homens.
Mas agora desconsiderando o aspecto cinematográfico da falsa profecia, fato é que o bug do milênio escancarou ingredientes culturais que só crescem na história recente do homem. O medo, a desconfiança, a preocupação, a permanente sensação de insegurança, sobretudo aquelas de ordem financeira.
Em contraponto, ainda há no mundo meia dúzia de malucos com a pachorra de viver sem grandes preocupações. Gente que não mede as consequências, não vê aflição no futuro, vive na prazerosa, mas perigosa loucura de ser e estar em função do presente.
Há ainda aqueles caboclos que são só ligeiramente inconsequentes. Pessoas que sentem sim medo, não o negam, ao revés, gostam de senti-lo, precisam senti-lo, mas ao mesmo tempo cansaram de ser fantoches da insegurança coletiva.
E é por isso que eu amo tanto a natureza humana.
Tão ambígua...
Enquanto para alguns o medo paralisa, para outros é ele justamente o grande estímulo para a ação.
Não é fantástico isso?

O SEXO DE CRISTO

A verdade é que ninguém sabe ao certo o que aconteceu e não aconteceu na vida de Cristo, essa a grande verdade. Com seis e meio bilhões de pessoas atualmente na Terra, somadas às outras bilhares que existiram ao longo dos últimos 2008 anos; foram tantas as versões para uma mesma história, tantas, que alguns dizem que Jesus sequer existiu. Outros atribuem ao mártir a condição de ser extraterrestre em visita ao planeta. Os mais crédulos dizem que ele é o próprio Deus. Ou pai e filho ao mesmo tempo.
Como particularmente também me sinto um brasileiro filho de Deus, não concordo quando dizem que só Cristo seria o filho do pai. Concordo sim que Cristo era um filho diferenciado, sim, isso eu mais que concordo. Mas já no começo da história "oficial" fico a desconfiar da versão segundo a qual não foi uma espetacular noite de amor entre um homem e uma mulher o que gerou a vida de Cristo, e sim o Espírito Santo, na forma do sopro do vento que teria fecundado a virgem. Embora a idéia em si seja de um realismo fantástico digno de invejar Gabriel Garcia Márquez, vai saber? Posso estar enganado, quem sabe esse vento fecundo e milagroso até tenha passado. Só não sei se simbologicamente essa versão ajuda as pessoas do mundo atual a se relacionarem naturalmente com o sexo. No mínimo, a versão se tornou uma forte contribuinte para o estigma de que a pureza da alma feminina depende basicamente dela ser ou não virgem. O que convenhamos, há muito tempo já que essa tese da santa virgindade não cola.
Mas não é só isso.
Pessoalmente, adoraria saber que a verdadeira verdade foi outra. Que numa bela noite estrelada o José saiu da tenda todo cheio de energia, aproximou-se da fogueira, circulou os olhos pelo ambiente, e parou justo em quem? Na santa Maria. Olhou-a, os olhos dele brilharam, os da moça também, e aí, sem perder tempo, logo o hebreu já estava lá, enchendo a dama de doces palavras.
Com todo respeito às posições sexualmente conservadoras, quando não são só dois corpos que se unem, e sim duas almas que se amam, o sexo é sagrado, sagradíssimo, quiçá o mais sagrado que dois adultos juntos possam fazer. Agora, quando são apenas dois corpos que se unem, nada mais que isso, sinceramente também não sei se seria algo sempre profano. Mas uma coisa é certa: são só dois corpos.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A QUÍMICA ESTÁ NO AR

A química está no ar. A química está no casalzinho enamorado do metrô, a química está nas prateleiras de supermercado, e também nas frutas da feira. A química está na escola, no sol, solo, água, e ar. A química está sobretudo no ar. A química está no ar dos fumegantes escapamentos de caminhão, tanto quanto no puro orvalho de uma manhã na serra do Mar. A química está sempre no ar. Gostemos ou não, o ar é químico, você é químico, eu sou químico, logo a química esquenta o ar há muita vida ou morte na Terra. A química é a força motriz da física. A química é o inexplicável, a física põe em prática o inexplicável, que nem por isso passa a ter explicação. A química não é uma tabela de elementos, a química é a combinação interminável desses elementos. A química é o perfume de uma laranja cortada. A química é ouvir o acorde dos deuses na voz dos anjos. A química vive na raiva do trânsito, no raro sabor do amor, e no calor das discussões em vão, a química está no cálculo do risco, no cálculo estequiométrico, a química está em tudo. A química é o que faz certas casas serem qualificadas como assombradas, e a química é o retrato poético de se faz das ruas antigas. Porque além de estar presente em tudo, a química permanece no tempo. A química nunca envelhece. Muda, isso sim. A química está em ininterrrupta mutação. A química é o universo.
A química.
Universal, no tempo e no espaço.