sexta-feira, 4 de setembro de 2009

SANTO QUE É SANTO

Santo que é santo precisa de inferno. Afinal, sem trevas, de que valeria o dom da santidade? Qual santa graça haveria na luz do santo, se à sua volta todos já estivessem iluminados? Para se tornar um cabra produtivo, realizado e socialmente útil, até santo carece da existência do mal, não só os advogados, as seguradoras e outras figuras sociais demonizadas.
Aliás, falando em bem e mal, santo daquele que não luta contra a natureza humana, ao contrário, tenta compreendê-la. Santo não combina com o “tipo moralista”, aquele que passa o tempo todo julgando e se julgando. Santo não vem ao mundo à caça de culpas. Mesmo porque, santo geralmente é figura teimosa. Insiste em acreditar que o perdão ainda é a virtude, não a vingança. Uma vez que o único jeito eficaz de se “combater” o mal é simplesmente fazendo o bem.
Santo que é santo não suporta viver o tempo todo na “matrix”. Santo pode até mergulhar no sistema, trabalhar, incorporar personagens sociais, obedecer às leis da República, ser escravo do tempo, entender sobre as oscilações das taxa de juros do Banco Central, porém, verdade seja dita. Santo que é santo há sempre de manter o canal aberto (bem aberto) com bebês, crianças, adolescentes e velhinhos. Em hipótese alguma santo pode se dar ao luxo de se fechar para um universo humano tão rico, tão surpreendente, e ao mesmo tempo tão alheio ao que se passa nas repetitivas manchetes de jornal...
Não faz muito sentido prático que santo defenda que o paraíso e inferno estejam em algum outro etéreo lugar que não aqui mesmo e agora. Se for mesmo verdade que santos vêm ao mundo para ajudar a humanidade, então qual a razão para que os dias melhores anunciados fiquem somente para supostas outras vidas?
É provável que pessoas dotadas da santa sensibilidade acabem mais dia menos dia aprendendo a tocar algum tipo de instrumento musical. É que a boa música instrumentaliza milagres.
Agora uma coisa é certa. Toda santidade digna de santa graça há de ver graça no rosto de todos. Brancos, negros, latinos, escandinavos, heteros, homos, orientais, ocidentais, dessa ou daquela religião, enfim. Santo com “S” maiúsculo jamais enxergará preconceito onde há tão-só diferenças.
Sem pretender polemizar por polemizar, mas santo moderno que é santo moderno também deve gostar de sexo e dinheiro. Por qual motivo essas duas coisas tão básicas ainda deveriam ser tão tabus, se ainda por cima constituem necessidades humanas diretamente relacionadas ao instinto de sobrevivência?
Ainda sendo o santo um arauto das boas escolhas, creio que quando ele se enfia lá no meio do rebanho desgovernado, é no máximo para apontar um caminho que julga correto, nunca para oferecer um método infalível de como andar nele.
Como se sabe, e aliás nesse aspecto acho que é unânime: santo jamais vê necessidade em fazer fama em cima de sua condição de santidade. Humildade? Talvez. Mas acho que o principal é que o sujeito iluminado tem plena consciência de que o único Ser a quem ele deve satisfação decerto ficará ciente de suas generosidades, com ou sem auto-propaganda. Ou seja, santos, mais do que humildes, não costumam ser inseguros, nem auto-afirmativos.
Capaz também que os santos defendam a monogamia nas relações humanas, mas não porque sejam indivíduos possessivos, egoístas, ou por acharem que a traição seja algo imoral, socialmente inaceitável. Apenas para amar alguém por inteiro, como dizem, de corpo e alma, convém concentrar as energias nesse alguém, se não simplesmente dispersa, e aí, nunca é por inteiro.
Santo também tem medo da morte, pois valoriza demais a vida. E só por isso.
Santo não voa, mas vive livre. O que já é pacas, convenhamos.
Santo não é sortudo, tão-só cultiva o que planta, razão simplória pela qual não passa a vida cuspindo no prato em que come.
Santo. Indivíduo para quem já caiu a ficha de que amar não é um mero capricho dos Deuses, é só a única maneira de se manter lúcido.
Graças a DEUS, o amor não é privilégio exclusivo dos anjos.

terça-feira, 14 de julho de 2009

CELEIRO INESGOTÁVEL

Ultimamente o Brasil não vem mais exportando somente bons jogadores de futebol. Para o deleite dos gringos, além dos boleiros a cada dia o país se consolida como celeiro inesgotável de artistas. Na música, literatura, direção de cinema e agora também dramaturgia. Da nova geração de atores, claro, Santoro é o primeiro nome que vem à mente. Quem viu "Bicho de Sete Cabeças" sabe que não foi à toa que em tão pouco tempo o ator conseguiu se infiltrar na mafia de Hollywood.
Já da turma da velha guarda cênica, foi com muito pesar que no ano retrasado o Brasil perdeu o rei dos tablados, o "senhor dos palcos", como ficou conhecido Paulo Autran. Em 2000, tive a grata oportunidade de vê-lo em "Visitando sr. Green" de Jeff Baron, a história de um executivo gay que atropela um velho judeu e leva como pena da Justiça a obrigação de visitar periodicamente o octogenário. Da postura corporal ao perigoso sotaque adotado, impressionou a capacidade com que Paulo incorporou a figura do personagem idoso. Antes de morrer, ainda o vi algumas vezes na televisão, não no papel de personagens, sendo entrevistado. Costumava ele dizer o seguinte. Que cinema é a arte do diretos. Teatro a do ator. E tevê? A do anunciante.
Agora... Se tem um ator brasileiro que considero assim, sensacional, um monstro mesmo, esse artista é outro Paulo. Paulo Maluf.
Palmas para os Paulos
Autran e Maluf.
Afinal, o que seria de nós, pobres mortais, sem os impagáveis personagens que esses dois grandes atores passaram a vida encarnando?

A PROFECIA DO MILÊNIO

Lembra dela? Da profecia do milênio que nunca se realizou? O bug do milênio transformou-se em um dos episódios mais emblemáticos de uma face de nossa sociedade. O homem moderno vive sob permanente ditadura: a ditadura do medo.
A suposta pane que ocorreria em todas as máquinas de computador, varrendo todos os sistemas de informação, supostamente traria consequências duradouras e prejuízos incalculáveis. Algo comos os filmes B americanos. A revolta das máquinas contra os homens.
Mas agora desconsiderando o aspecto cinematográfico da falsa profecia, fato é que o bug do milênio escancarou ingredientes culturais que só crescem na história recente do homem. O medo, a desconfiança, a preocupação, a permanente sensação de insegurança, sobretudo aquelas de ordem financeira.
Em contraponto, ainda há no mundo meia dúzia de malucos com a pachorra de viver sem grandes preocupações. Gente que não mede as consequências, não vê aflição no futuro, vive na prazerosa, mas perigosa loucura de ser e estar em função do presente.
Há ainda aqueles caboclos que são só ligeiramente inconsequentes. Pessoas que sentem sim medo, não o negam, ao revés, gostam de senti-lo, precisam senti-lo, mas ao mesmo tempo cansaram de ser fantoches da insegurança coletiva.
E é por isso que eu amo tanto a natureza humana.
Tão ambígua...
Enquanto para alguns o medo paralisa, para outros é ele justamente o grande estímulo para a ação.
Não é fantástico isso?

O SEXO DE CRISTO

A verdade é que ninguém sabe ao certo o que aconteceu e não aconteceu na vida de Cristo, essa a grande verdade. Com seis e meio bilhões de pessoas atualmente na Terra, somadas às outras bilhares que existiram ao longo dos últimos 2008 anos; foram tantas as versões para uma mesma história, tantas, que alguns dizem que Jesus sequer existiu. Outros atribuem ao mártir a condição de ser extraterrestre em visita ao planeta. Os mais crédulos dizem que ele é o próprio Deus. Ou pai e filho ao mesmo tempo.
Como particularmente também me sinto um brasileiro filho de Deus, não concordo quando dizem que só Cristo seria o filho do pai. Concordo sim que Cristo era um filho diferenciado, sim, isso eu mais que concordo. Mas já no começo da história "oficial" fico a desconfiar da versão segundo a qual não foi uma espetacular noite de amor entre um homem e uma mulher o que gerou a vida de Cristo, e sim o Espírito Santo, na forma do sopro do vento que teria fecundado a virgem. Embora a idéia em si seja de um realismo fantástico digno de invejar Gabriel Garcia Márquez, vai saber? Posso estar enganado, quem sabe esse vento fecundo e milagroso até tenha passado. Só não sei se simbologicamente essa versão ajuda as pessoas do mundo atual a se relacionarem naturalmente com o sexo. No mínimo, a versão se tornou uma forte contribuinte para o estigma de que a pureza da alma feminina depende basicamente dela ser ou não virgem. O que convenhamos, há muito tempo já que essa tese da santa virgindade não cola.
Mas não é só isso.
Pessoalmente, adoraria saber que a verdadeira verdade foi outra. Que numa bela noite estrelada o José saiu da tenda todo cheio de energia, aproximou-se da fogueira, circulou os olhos pelo ambiente, e parou justo em quem? Na santa Maria. Olhou-a, os olhos dele brilharam, os da moça também, e aí, sem perder tempo, logo o hebreu já estava lá, enchendo a dama de doces palavras.
Com todo respeito às posições sexualmente conservadoras, quando não são só dois corpos que se unem, e sim duas almas que se amam, o sexo é sagrado, sagradíssimo, quiçá o mais sagrado que dois adultos juntos possam fazer. Agora, quando são apenas dois corpos que se unem, nada mais que isso, sinceramente também não sei se seria algo sempre profano. Mas uma coisa é certa: são só dois corpos.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A QUÍMICA ESTÁ NO AR

A química está no ar. A química está no casalzinho enamorado do metrô, a química está nas prateleiras de supermercado, e também nas frutas da feira. A química está na escola, no sol, solo, água, e ar. A química está sobretudo no ar. A química está no ar dos fumegantes escapamentos de caminhão, tanto quanto no puro orvalho de uma manhã na serra do Mar. A química está sempre no ar. Gostemos ou não, o ar é químico, você é químico, eu sou químico, logo a química esquenta o ar há muita vida ou morte na Terra. A química é a força motriz da física. A química é o inexplicável, a física põe em prática o inexplicável, que nem por isso passa a ter explicação. A química não é uma tabela de elementos, a química é a combinação interminável desses elementos. A química é o perfume de uma laranja cortada. A química é ouvir o acorde dos deuses na voz dos anjos. A química vive na raiva do trânsito, no raro sabor do amor, e no calor das discussões em vão, a química está no cálculo do risco, no cálculo estequiométrico, a química está em tudo. A química é o que faz certas casas serem qualificadas como assombradas, e a química é o retrato poético de se faz das ruas antigas. Porque além de estar presente em tudo, a química permanece no tempo. A química nunca envelhece. Muda, isso sim. A química está em ininterrrupta mutação. A química é o universo.
A química.
Universal, no tempo e no espaço.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A FAVELA DO MANGUE

A favela do Mangue dista uns dois quilômetros de casa. Bons alqueires de densa Mata Atlântica a separam do quiosque da churrasqueira do meu sogro. Embora estejamos confinados dentro de um condomínio de muros fechados, do lado esquerdo, onde o vizinho é a floresta, justamente por essa razão não foram construídos muros de proteção.
Outro dia a Hilda veio me dizer que há uns tempos atrás o pessoal do Mangue se embrenhou na mata para abrir uma precária trilha ligando a favela ao condomínio. Curiosamente, escolheram o quiosque da churrasqueira como a porta de entrada. Pois bem. Os aventureiros vindos do manguezal chegaram no condomínio num dia qualquer de meio de semana, sabendo que essa é a boa ocasião para entrar numa casa de veraneio. Esconderam latas de cerveja nos fundos do quiosque da churrasqueira, mas não levaram nada.
Particularmente, e o que mais me motiva a refletir sobre esse episódio, é o fato de que antes disso já havia me dado o direito de conhecer a tal favela do Mangue. Primeiro fui sozinho. Descobri o local à toa, indo de bicicleta comprar peixe nas bancas do Perequê. Não sei por que cargas naquele dia, resolvi matar a curiosidade e descobrir o que as bancas de peixe escondiam. Entrei por um longo beco que sai ziguezagueando pelas casas de alvenaria. Ao fim do beco, chega-se finalmente à favela. Um conjunto de palafitas erguidas sobre as águas de um rio desses que deságua no mar. Na maré baixa, os moradores dos casebres de madeira carcomida e tinta descascada vêem surgir crustáceos por todas as partes. Esta mesma maré baixa, somada ao forte calor que ali faz, provocam um odor meio desagradável. Em compensação, na maré alta o cheiro praticamente some, e andar de bicicleta pelas pontes flutuantes fica ainda mais interessante. A madeira balança um pouco e à medida que as rodas vão percorrendo os caminhos, são emitidos prazerosos estalos. As casinhas de porta aberta vão passando, as mulheres descascando a escama dos peixes no tanque, ouvindo músicas evangélicas com o volume às alturas. Os gatos lambendo cabeças de camarão descartadas no chão, crianças magras e barrigudinhas empinando pipa, e a molecada mais velha lançando tarrafa na ponte. Cinema ao ar livre. Gostei tanto de lá, que da última vez botei a primogênita na cadeirinha da bicicleta, e a levei também para conhecer a viela.
- Pai, são eles os “pescadores”? – repetia várias vezes essa pergunta, como se o status de pescador tornasse a pessoa um ser de outro planeta.
De repente, mais lá para o meio do rio, numa ruela comprida e agitada, passou um cara grande, alto, mas devia ter o quê? Quinze, dezesseis anos? Mancando, com umas escoriações bizarras no corpo. A ferida exposta no couro cabeludo era a que causava maior aflição. Foi constrangedor ver os miolos expostos do garoto.
- São eles os “pescadores”, papai?
Depois só que fui saber da trilha ligando a favela do Mangue ao nosso condomínio fechado, e da previsível periculosidade de alguns do moradores da favela. Sem nenhuma pretensão de militância social, sem pretender entrar em discussões políticas ou ideológicas, e também sem medo de assumir uma certa inocência romântica, própria de quem vê beleza na pobreza só porque nunca soube o que é de fato viver na pobreza; tenho só curiosidade de saber até quando os pobres serão invasores na terra dos ricos, e os ricos serão invasores na terra dos pobres.